A defesa contestou o trabalho de Moraes, atacou um acordo de delação assinado por Mauro Cid e acusou a polícia de esconder provas; houve “interrupções” e até tempo para descanso na sessão.
O Supremo Tribunal Federal (STF) completou nesta quarta-feira (3) o segundo dia do julgamento envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros sete réus acusados de outra tentativa de golpe insinuada após as eleições de 2022. A audiência, que foi realizada pela Primeira Turma do tribunal, também foi caracterizada por disputas jurídicas, queixas da defesa e até algumas risadas.
Os advogados de Bolsonaro, assim como o ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, e o ex-ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, e o general Walter Braga Netto falaram aos ministros. O advogado Matheus Milanez, representando Heleno, alegou falta de oportunidade para examinar os novos documentos inseridos no processo na véspera do julgamento e criticou o ministro Alexandre de Moraes, o relator.
“Temos uma posição ativa do juiz relator na busca de testemunhas. O juiz tem que ser objetivo e não participar do processo”, disse Milanez, que também apontou a saída de Heleno do governo após Bolsonaro se aproximar do Centrão.
Questionamentos sobre a delação de Mauro Cid
Apenas os juízes pareciam incapazes de entender que a desculpa para a supressão de trabalho não é uma “boa causa” para a falta de tempo para estudar as provas. Outro ponto-chave foi o acordo de delação do ex-ajudante de ordens Mauro Cid, considerado pelo Ministério Público como um dos blocos do caso.
O advogado Celso Vilardi, que representou Bolsonaro, questionou a credibilidade do informante da polícia: “Ele foi chamado para depor 15 ou 16 vezes, dando uma nova versão a cada vez. Não há nada que ligue Bolsonaro à Operação Luneta, à Adaga Verde ou ao 8 de janeiro”, disse.
Por outro lado, Andrew Fernandes Farias, que defende o ex-ministro Paulo Sérgio Nogueira, citou trechos da colaboração de Cid para defender a tese de que seu cliente teria tentado impedir Bolsonaro de tomar medidas radicais. “A inocência do general é clara”, acrescentou.
Interrupções e momentos inusitados
A sessão também teve momentos mais leves. Em seu discurso, Andrew Farias compartilhou uma lição de sua sogra, provocando risos de ministros como Flávio Dino e Alexandre de Moraes, que fizeram comentários sobre o momento. Um momento depois, o telefone do advogado tocou, ao que Dino acrescentou: “Não esqueça de atender, pode ser sua sogra.”
Outra gafe que ele cometeu foi quando afirmou “Ministro do Exército”, ao que Dino rapidamente o corrigiu: “Esse ministério não existe, você quer dizer o comandante do Exército?” Vilardi sabia que era um erro e seguiu em frente.
A sessão também foi marcada por falhas técnicas. O microfone do advogado de Braga Netto ficou mudo por alguns minutos, e o presidente da Turma, ministro Cristiano Zanin, interrompeu o discurso até que o problema fosse resolvido.
Próximos passos
O julgamento retorna na terça-feira (9) às 9h, quando o Tribunal ouvirá os defensores dos outros réus antes de os ministros decidirem sobre o mérito.
Por: Lucas Reis
Foto: Rosinei Coutinho/STF