Porsche, ordens de tortura e ‘favor’ para major da PM: o retrato do CV na denúncia que embasou operação no Rio

Gigabytes de mensagens de texto e áudio no WhatsApp, além de postagens nas redes sociais produzidas pelos próprios acusados, fazem parte de uma denúncia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) que destrincha a cúpula do Comando Vermelho (CV) no Complexo da Penha.

Este e o Complexo do Alemão, ambos na zona norte do Rio, foram alvo da Operação Contenção na terça-feira (28/10), que mirou o CV.

Mais de 120 pessoas morreram, incluindo quatro policiais. Essa já é considerada a operação policial mais letal da história no Brasil.

A denúncia do MP, abastecida em partes por investigações policiais, foi uma das bases para a operação.

A grande maioria foi denunciada pelo crime de associação ao tráfico, e três também por tortura.

Segundo informações divulgadas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, 99 das pessoas que morreram na terça já foram identificadas. Dessas, 42 tinham mandados de prisão pendentes e 78 apresentavam “relevante histórico criminal”.

Outras 113 pessoas foram presas na operação. Mas a lista completa com todos os nomes dos detidos e mortos ainda não foi divulgada.

A denúncia do MPRJ revela a hierarquia do CV no Complexo da Penha, a organização de escalas de trabalho, as gírias, as armas e os equipamentos usados pela facção criminosa.

Mostra ainda detalhes angustiantes de tortura realizada contra pessoas acusadas de prejudicarem a organização criminosa, além de uma ordem de execução e a colaboração com um major da Polícia Militar.

Confira abaixo algumas das revelações da denúncia.

O topo da hierarquia

A denúncia do Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do MPRJ delineia a ordem de comando da facção criminosa no Complexo da Penha.

No “primeiro escalão” do CV no complexo, estão Edgar Alves de Andrade, conhecido como “Doca” ou “Urso”; e Pedro Paulo Guedes, o “Pedro Bala”.

Doca é o principal líder do CV em liberdade, abaixo apenas de Marcinho VP e Fernandinho Beira-Mar, ambos presos.

A importância de Doca é endossada pelo documento do MP, segundo o qual se trata da “principal liderança da facção criminosa ora em ascensão em todo o Estado do Rio de Janeiro”.

Doca está foragido. Com base em um inquérito policial, a denúncia afirma que, devido à sua importância, ele tinha “sua residência fortemente vigiada por seguranças armados de fuzis”.

Colagem com duas fotos; na direita, é possível ver homens sentados perto de fuzis

Crédito,Reprodução

Legenda da foto,Casa de Doca era fortemente vigiada por homens com fuzis, diz a denúncia


Uma das evidências apontadas para descrever a importância de Pedro Bala, por sua vez, é um conjunto de mensagens de membros do CV em que este é chamado de “chefe”.

Uma mensagem encontrada, por exemplo, diz: “Ninguém dá tiro sem ordem do Doca ou do Bala.”

Abaixo de Doca e Pedro Bala, na função de gerente-geral, estariam Carlos Costa Neves, o “Gardenal”; e Washington Cesar Braga da Silva, o “Grandão” ou “Síndico da Penha”.

Uma das funções de Gardenal seria participar da expansão do CV na região de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, tradicionalmente ocupada por milícias.

Até o início da tarde desta sexta-feira (31/10), os nomes de Pedro Bala, Gardenal e Síndico da Penha não constavam na lista de criminosos mortos ou presos divulgada pela Polícia Civil.

Colagem de fotos mostra um Porsche em rua de favela e homem fazendo selfie com grande colar de ouro, aparentemente

Crédito,Reprodução  foto,Gardenal ostentava carros e joias, afirma documento do MPRJ


“Os elementos informativos obtidos evidenciaram que ele exerce chefia sobre a grande maioria dos traficantes, orientando, por exemplo, sobre aquisição de armas de fogo, drones de vigilância e outros acessórios relacionados à manutenção do Comando Vermelho como principal facção criminosa no território”, diz o documento do MPRJ sobre Gardenal.

De acordo com a denúncia, o acusado ostentava fotos com armas de alto calibre, grandes somas de dinheiro, joias e carros de luxo — uma imagem aparentemente mostra um Porsche Taycan circulando na favela à noite.

Grandão, por sua vez, tinha entre suas funções a “gestão do pessoal ligado ao tráfico de drogas local”, definindo, por exemplo, escalas de plantão e distribuição dos membros da facção pela comunidade.

Print de conversa no WhatsApp mostra divisão de 'equipe' do 'Plantão do dia'

Crédito,Reprodução  foto,‘Grandão’ seria responsável pela gestão do ‘pessoal’ do tráfico, como a divisão do plantão

Print mostra regras de conduta em evento

Crédito,Reprodução  foto,Mensagem de Grandão determina regras de conduta durante evento na comunidade


Mensagens mostram que ele também emitia ordens de conduta, por exemplo a proibição de fuzis e armas em um evento da comunidade.

Em uma mensagem do WhatsApp, ele teria escrito: “A entrada de qualquer amigo de fuzil, responsável e firma, dono, gerente, segurança, vapor, seja o que for, está proibido a entrada de fuzil no campo. (…) Não será tolerado nenhum tipo de transtorno, o papo tá sendo dado pelas nossas lideranças já horas antes do evento, o evento é pro morador curtir, vamos participar com prudência e inteligência evitando qualquer tipo de problema.”

Outra mensagem enviada por ele anuncia a previsão de pagamento aos membros do tráfico: “Hoje será feito o pagamento a todos, e a partir de amanhã será remajados [remanejados] alguns postos e alguns amigos do plantão do dia, no pagamento receberá e saberá a ponta.”

‘O gerente vai executar ele na frente de geral’

Colagem de 2 fotos mostra mulher em balde de gelo e homem no chão sendo agredido

Crédito,Reprodução foto,Investigação mostrou imagens de tortura e agressões, como de mulher acusada pelo tráfico de ‘arrumar confusão no baile’


A denúncia do MPRJ traz também evidências de torturas, agressões e até uma ordem de execução por traficantes.

Em um áudio atribuído a Gardenal, é determinada a morte de um “vapor” (vendedor de drogas), na frente de “geral”, por estar “perdendo” carregamento. A BBC News Brasil não conseguiu apurar se de fato houve a execução.

A transcrição do áudio diz: “É, o vapor mais derramado, o gerente nós vai matar agora, na frente de geral. Se o Bacurau aparecer, nós vamos mandar geral brotar aqui, o gerente vai executar ele na frente de geral.”

Outro dos denunciados, Juan Breno Malta Ramos ou “BMW”, também teria ordenado punições e torturas de moradores.

BMW, segundo o documento, seria gerente do CV na Gardênia Azul, região de Jacarepaguá. Além disso, chefiaria o “Grupo Sombra”, um grupo de matadores a serviço do CV.

Imagens incluídas na denúncia mostram, por exemplo, uma mulher dentro de um balde de gelo, com uma legenda acusando-a de ser “brigona” e “arrumar confusão no baile”. Outra foto mostra um homem no chão, aparentemente sendo agredido.

Há ainda a menção a um vídeo em que um homem é por alguns minutos arrastado por um carro. Ele está amordaçado e algemado. A intenção dos traficantes seria fazê-lo confessar que participou de uma delação a um grupo rival.

“Em meio a gritos implorando por perdão, [a vítima] cita o nome ‘BMW’ por diversas vezes, enquanto JUAN BRENO, vulgo ‘BMW’, faz piada do sofrimento alheio, debochando da vítima agonizante. No final do vídeo, aparece chamada de vídeo com o rosto do denunciado CARLOS, vulgo ‘GARDENAL’, reforçando a ligação cada vez mais forte entre essas duas lideranças em ascensão no Comando Vermelho”, descreve a denúncia.

O documento afirma ainda que o grupo utiliza adolescentes para “diversas funções criminosas” e comete crimes “nas cercanias de estabelecimentos de ensino, afetando a rotina dos estudantes e professores”.

Favor para major da PM e atividades paralelas

Conversa no WhatsApp mostra fotos de carro à venda

Crédito,Reprodução  foto,Segundo promotores, Gardenal recebia mensagens de vendedores de carros roubados com ofertas


Os investigadores também denunciam colaborações entre policiais militares e traficantes.

Uma mensagem de WhatsApp encontrada mostra um major da PM entrando em contato com Grandão para solicitar a recuperação de um carro — “subtraído”, segundo a denúncia, em 26 de abril de 2024 e recuperado em 29 de abril daquele ano.

O gerente do tráfico aciona o grupo “CPX DA PENHA” para recuperação do carro.

Procurada para comentar o envolvimento do major, a Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) afirmou em nota que, através de sua corregedoria, “colabora integralmente com os procedimentos investigativos mencionados”.

Segundo reportagem de Rafael Soares no jornal O Globo, o major segue na corporação, na função de gestor estratégico responsável pela favela da Rocinha. No último mês, seu salário foi de R$ 26,6 mil.

Outro trecho da denúncia mostra BMW discutindo o pagamento de R$ 15 mil para policiais liberarem um “moleque” da facção.

O denunciado também teria conseguido montar um sistema de monitoramento com câmeras no Complexo da Penha e na Gardênia Azul, algumas com sensor de movimentação.

Segundo o MPRJ, há indícios de que BMW lavava dinheiro através de uma pizzaria.

Em outra atividade paralela, mensagens indicam que Gardenal negociava com autores de roubos de carros a venda desses veículos “por valores muito abaixo do que no mercado regular e lícito”, diz a denúncia da promotoria.


Por Mariana  BBC News Brasil 

Foto: Destaque Reprodução

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