Grupo privado “Mia Moglie” contava com mais de 30.000 homens postando imagens privadas e comentários lascivos; denúncias levaram a proibições e investigações policiais.
O Facebook removeu o grupo italiano “Mia Moglie” (“Minha Esposa”) esta semana, após gerar uma indignação pública e milhares de denúncias à empresa. A comunidade, que foi formada em 2019 e tinha cerca de 32.000 membros, funcionava como um espaço para homens compartilharem fotos íntimas de mulheres sem o consentimento delas, juntamente com comentários explícitos e degradantes.
Embora existisse desde 2019, o grupo ganhou notoriedade em maio de 2023, quando imagens privadas de mulheres, compartilhadas sem permissão, começaram a circular. O caso foi revelado após um relatório da escritora e ativista Carolina Capria, que disse ter encontrado as postagens como uma espécie de “estupro virtual” e afirmou estar “enojada e assustada”.
A indignação mobilizou milhares de usuários, que pressionaram a Meta (a empresa por trás do Facebook), bem como as autoridades italianas. A Polícia Postal Italiana, especializada em crimes digitais, logo acumulou cerca de 2.800 queixas de vítimas, com muitas relatando o trauma emocional causado pela disseminação de suas imagens íntimas sem permissão.
Consequências legais
Na Itália, a divulgação não autorizada de imagens explícitas é crime desde 2019, punível com 1 a 6 anos de prisão e — dependendo da renda da pessoa acusada — multas de até 15.000 euros. Membros do grupo, segundo especialistas, poderiam ser processados não apenas por pornografia de vingança, mas também por difamação, violação de privacidade e — em alguns casos — pornografia infantil, se vítimas menores de idade forem divulgadas.
A advogada Marisa Marraffino, especialista em crimes digitais, disse: “Há aqueles que estão correndo sérios riscos legais aqui: aqueles que compartilham esse tipo de conteúdo não podem alegar ignorância. A lei é clara e isso é uma ofensa criminal.”
Reação contra a Meta e vergonha pública
Partidos políticos italianos e organizações de direitos das mulheres condenaram o Facebook por demorar a agir. E para o Partido Democrático, o caso é a mais recente ilustração de falhas graves de moderação. O Movimento Cinco Estrelas e a associação Codacons também pediram ajustes imediatos na forma como a empresa combate a violência digital.
Embora o grupo tenha sido removido, especialistas alertam que outros espaços semelhantes ainda existem em plataformas como o Telegram, destacando a dificuldade de conter a propagação desse tipo de violência.
O episódio reacendeu o debate sobre o papel das empresas de mídia social em proteger as vítimas e a demanda por respostas mais rápidas e eficazes à exposição não consensual de mulheres na web.
Por: Lucas Reis
Foto: BBC