Presidente ajusta comunicação e passa a confrontar elites econômicas em um terreno antes explorado pela direita
Com a aproximação do calendário eleitoral de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinaliza uma mudança estratégica em sua comunicação política ao adotar um discurso de enfrentamento ao chamado “sistema”, conceito historicamente associado ao bolsonarismo. A nova narrativa busca reposicionar o governo e dialogar com setores populares por meio de críticas diretas às elites econômicas e aos privilégios concentrados no topo da pirâmide social.
Desde o início do terceiro mandato, Lula sustentou a ideia de “reconstrução” institucional após os anos de Jair Bolsonaro (PL). Agora, porém, aliados indicam que o Planalto avalia substituir esse eixo por uma retórica mais combativa, voltada ao embate contra grandes grupos financeiros, bilionários e estruturas de poder que, segundo o discurso petista, operam à margem do interesse público.
O movimento coloca Lula em disputa direta com o bolsonarismo em um território simbólico tradicionalmente explorado pela direita desde 2018. Bolsonaro construiu sua imagem política como um outsider antissistema, utilizando o termo para atacar instituições, adversários, a imprensa e o Judiciário — mesmo após ocupar a Presidência da República por quatro anos.
Ressignificação do “sistema”
No campo governista, o conceito passa a ter outro significado. Para o PT, o “sistema” não está nas instituições democráticas, mas na concentração de poder econômico, em práticas do mercado financeiro e em setores beneficiados por isenções fiscais e brechas regulatórias. Casos recentes envolvendo investigações financeiras, como o do Banco Master, são vistos por aliados como oportunidades para sustentar esse discurso.
A linha adotada foi reforçada por uma resolução da executiva nacional do PT, divulgada na última semana, que associa escândalos financeiros à relação entre mercado, corrupção e crime organizado. O documento defende que a disputa política atual é estrutural e envolve, além do poder econômico, a atuação das big techs e a ofensiva da extrema direita no ambiente digital.
Internamente, o novo tom encontra apoio em figuras centrais do governo, como o ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira, e o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos. A mudança também dialoga com medidas adotadas ao longo de 2025, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda para salários de até R$ 5 mil e a defesa da taxação de grandes fortunas.
A aposta do Planalto é que o discurso antissistema, ressignificado sob uma ótica social e econômica, permita a Lula disputar narrativas com a direita e recuperar protagonismo junto ao eleitorado em um cenário de polarização persistente.
Por: Genivaldo Coimbra