Reflexões sobre a Finitude em “Embora”
Com um verso marcante, “Desta vez é para valer. Vai dar certo”, Paulo Henriques Britto inicia seu nono livro de poesias, intitulado “Embora”. Essa obra se revela um verdadeiro compêndio das marcas registradas do autor carioca, evidenciando suas predileções e estilo singular.
Estrutura e Temas
O poema inicial, “Escrito na Primeira Página de um Caderno”, é um soneto, uma das estruturas favoritas de Britto, que acredita que o verso livre pode levá-lo à trivialidade. Além disso, ele traz à tona um aspecto metalinguístico, tão presente em sua produção, e uma pitada de autoironia, uma de suas características mais reconhecíveis.
Este soneto parece, em um primeiro olhar, sugerir que o esforço poético pode ser em vão. Porém, a mensagem “Escreva, porém. Apesar. Embora.” impõe uma resiliência diante da incerteza.
A Finitude e a Maturidade Artística
O título “Embora” encapsula a ideia central do livro: mesmo que os gestos poéticos pareçam fúteis frente à nossa finitude, há um valor intrínseco na expressão artística. Nesta obra, o poeta de 74 anos confronta a inevitabilidade da morte, evocando um clichê do artista maduro. O fato de Britto ter se tornado imortal ao receber uma cadeira na Academia Brasileira de Letras em 2025 apenas intensifica a leitura de sua reflexão sobre a transitoriedade da vida.
Humor e Pessimismo
A questão da futilidade é uma constante nos trabalhos de Britto. Já presente em sua obra desde “Macau”, de 2003, seus poemas frequentemente mesclam humor e um olhar crítico sobre a vida. Sua obra traz uma leveza que contrasta com o pessimismo, permitindo ao leitor encontrar um caminho mais divertido mesmo nas temáticas mais sérias.
Transições Temáticas
Seus trabalhos anteriores também revelam essa dualidade. Em “Fim de Verão” (2022), o autor explora a passagem do tempo de forma quase melancólica, embora com uma aceitação estoica. Contudo, “Embora” mergulha nesse tema de maneira ainda mais intensa, fazendo com que a repetição de temas e ideias ao longo do livro acabe, paradoxalmente, por diluir a força dos versos.
A Musicalidade dos Poemas
Britto possui uma predileção por sequências poéticas que funcionam como peças musicais autônomas, cada qual com seu próprio ritmo. Porém, nesta obra, essa estratégia pode criar uma sensação de monotonia, tornando os poemas individuais pouco impactantes. Destaque para “Mais uma Falange”, que remete a uma criação sonhadora, revelando um tom sombrio e cômico ao mesmo tempo.
Celebrando as Coisas Inanimadas
“Natureza-morta III” se destaca como uma ode à alegria de objetos inanimados. Essa vertente poética, que ressoa com vozes como Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto, é uma área frequente de exploração para Britto. O verso “ser coisa não deve ser cansativo” reflete essa celebração das existências simples e suas alegrias.
O Desejo e a Ascese
O desejo de não deixar rastros no mundo, dinâmico presente no último verso de um dos poemas, se entrelaça com uma busca de ascese, quase budista, recorrente na obra de Britto. Em “Embora”, essa busca se expressa na série “Do Desejo”, que começa com a enigmática afirmação: “eu não queria não querer o que não quero”.
Encontros Poéticos
Nas “Quatro Glosas”, Britto exibe seu talento como professor e tradutor, reverberando diálogos com poetas renomados como Emily Dickinson e Samuel Beckett. Essas intersecções enriquecem a experiência de leitura e trazem uma nova dimensão para “Embora”.
Conclusão: Uma Combinação Rara
Paulo Henriques Britto é um autor que combina erudição e humor de maneira singular, encantando leitores de todas as esferas. Mesmo que “Embora” possa parecer menos memorável que outras obras, isso pode se dever à ausência de um elemento distintivo típico de sua poesia: o hedonismo que sugere que, mesmo diante dos desafios, a vida pode ainda nos oferecer boas surpresas.
Publicado por Maria Lucia