A História do Maranhão em Ruínas
Entre 2012 e 2014, vivi e trabalhei em São Luís, atuando como professor de história e pesquisador na Universidade Estadual do Maranhão. A instituição se estabelecia num belo sobrado histórico, um espaço que, na época, estava completamente reformado e acolhedor, destacando-se como uma das poucas construções bem preservadas no centro histórico da cidade.
Adecisão de morar no centro histórico
A minha escolha de residir no coração da capital maranhense foi, sem dúvida, inusitada. Não me lembro de outros professores ou historiadores vivendo na região. A decisão não era simples. As ruas estreitas, muitas vezes intransitáveis para veículos, contrastavam com as expectativas da classe média, que valoriza Garagens e comodidades diárias como padarias e farmácias, difíceis de encontrar na área.
O Projeto Reviver e sua importância
Os moradores de São Luís se referem ao centro histórico como Reviver, um projeto que começou nos anos 80 sob a liderança do governador Epitácio Cafeteira. Assim como em muitas outras cidades brasileiras, como Ouro Preto e Olinda, as edificações de São Luís só escaparam da modernização desenfreada do século passado por terem se tornado menos atraentes para as classes abastadas, que buscaram novos bairros para viver.
A preservação e seus desafios
Na cidade, a elite se transferiu para os bairros como São Francisco e Renascença, deixando os casarões em estado de deterioração. Embora o tombamento pelo IPHAN em 1974 tenha assegurado a preservação, a manutenção do centro histórico ainda é um desafio constante.
O legado do projeto Reviver
O objetivo do projeto Reviver era não apenas revitalizar os casarões coloniais, mas também modernizar a infraestrutura subterrânea, transformando a área em um polo cultural e turístico. Esse esforço culminou em 1997, quando a cidade foi reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade.
A deterioração do Apem
Recentemente, soube com tristeza que o Apem (Arquivo Público do Estado do Maranhão), um espaço essencial para a preservação da memória histórica, enfrenta sérias condições. O prédio, localizado na Rua de Nazaré, está interditado devido a infiltrações e riscos de colapso. Criado em 1974, o Apem abriga documentos desde o século 18, mas enfrenta uma grave crise.
O descaso com a cultura e a memória
Infelizmente, denúncias recentes apontam para o descarte de um valioso acervo documental em caçambas. A falta de ação do governo estadual, sob a gestão de Carlos Brandão, é alarmante. O secretário de Cultura, mesmo prometendo um remanejamento seguro do acervo e reformas, até o momento não apresentou resultados concretos.
O risco de perda da memória maranhense
Entramos na temporada de chuvas intensas, e facilmente imaginamos a devastação que um colapso do Apem pode causar, não só para as estruturas físicas, mas para a identidade cultural do Maranhão. Com isso, a sociedade maranhense observa sua rica memória histórica se desvanecer, deixando um rastro de angústia e um futuro incerto.
Publicado por Maria Lucia.