A Rotina de Lourenço Mutarelli
“A minha rotina é maravilhosa, eu amo a minha rotina”, declara Lourenço Mutarelli, que tem acordado às 3h da manhã para se dedicar à escrita, desenho e música. Entre tarefas domésticas e uma luta constante contra o álcool, o autor também tenta reduzir o número de cigarros que fuma por dia, enquanto lida com uma grave condição de saúde que afetou 70% de seu coração após duas paradas cardíacas em 2020. Para ele, tudo que vive é visto sob uma “ótica de despedida”.
Mutarelli lança seu décimo romance, “Masuaki e/ou Não Deixe os Cachorros Latirem Sozinhos”, que passa por temas de insônia, relacionamentos instáveis e delírio, mesclando experiências de vida e ficção.
Realidade e Ficção
A obra foi influenciada por sua experiência anterior em “O Livro dos Mortos: Uma Autobiografia Hipnagógica”, onde usou metáforas e alegorias. Agora, porém, ele buscou criar uma narrativa mais surreal. No entanto, eventos marcantes da sua vida, especialmente sua condição médica, acabaram por invadir sua escrita.
“A realidade, para variar, acabou invadindo meu trabalho”, diz o autor. Apesar dos desafios, ele permanece otimista sobre seu tratamento e reflete sobre sua vida com um misto de tristeza e aceitação.
Personagens Fascinantes
Os livros de Mutarelli geralmente apresentam personagens que se sentem deslocados e que vivem dentro de suas próprias rotinas. O protagonista de seu novo livro, Masuaki, é inspirado em um médium japonês que obcecou o jovem Mutarelli na década de 1970. Ele recorda as tentativas de replicar os feitos de Masuaki Kiyota em casa, uma busca que culminou em desilusão quando o médium admitiu ter enganado o público.
Influências e Quadrinhos
A ligação de Mutarelli com os quadrinhos é evidente nesta nova obra, especialmente quando seu personagem folheia uma edição de “Little Nemo”, uma história que reverbera profundamente para ele devido à sua própria luta contra a insônia. O autor expressa um profundo apreço pelo estado de sonho intermediário que esses quadrinhos representam.
Projetos em Andamento
Atualmente, Mutarelli dorme entre três e quatro horas por noite, dedicando as madrugadas a novos projetos gráficos, incluindo um livro com o título “Me Perdoe, Senhor Stevenson”. Este trabalho aborda temas inspirados em “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, mas também reflete a dor pessoal pela perda de um irmão devido ao vício.
Luta Contra Vícios
Ele é transparente sobre suas próprias batalhas, especialmente com o alcoolismo, que se intensificou durante a pandemia. Em meio a tudo isso, Mutarelli tenta manter o controle, mesmo que sua relação com o tabaco persista, fumando cerca de oito cigarros por dia. “Não sou um exemplo, sou uma advertência”, ele reflete, misturando humor e seriedade.
Reflexões sobre a Vida
Apesar dos desafios que enfrenta, ele não se considera derrotado. Em uma entrevista recente, dividiu suas inseguranças sobre ser visto como um “fracassado”, mas reafirmou sua autovalorização e amor pela vida: “Às vezes dá medo, mas eu adoro isso aqui. Minha vida tem sido incrível.”
Os 62 anos de Mutarelli são moldados por uma rica trajetória na literatura e nos quadrinhos, com obras que foram adaptadas ao cinema e continuam a ressoar com o público anos depois de seu lançamento. A narrativa de sua vida e obra é um convite à reflexão sobre a fragilidade e a beleza da existência humana.
Publicado por Maria Lucia.